O INFILTRADO: Entre o desenho e a gravura na obra monocromática de Diego Raick

O INFILTRADO: Entre o desenho e a gravura na obra monocromática de Diego Raick
Diego Raick. Desenho a partir do descritivo de uma obra de Goeldi. MASC

Seguimos com nossa jornada pela gravura capixaba, vista a partir do trabalho dos professores de gravura do Centro de Artes.

A imagem de capa da nossa coluna de hoje é para mim um espanto! A imagem é uma metalinguagem da própria ideia de gravura. Como vimos antes, a gravura implica em uma matriz que permite reproduzir uma peça a partir de um limite estabelecido pelo artista – ou muitas vezes pelo próprio galerista. Mas, em termos museográficos, o que fazer quando a única coisa que temos é o descritivo da gravura de um artista famoso?

O projeto poético de Diego Raick propõe uma solução: refazer a gravura a partir de seu descritivo. Segundo o artista, “É uma proposta minha de dar uma imagem, que é fictícia, a obras de acervos perdidas. Afinal, não é a obra. Mas essa informação acaba não sendo exposta e com o tempo a imagem que proponho vai sobrevivendo no vazio deixado pela outra.”

Essa fala de Raick me parece muito interessante, pois me lembra o Rinoceronte de Dürer, feito a partir da descrição do que seria aquele animal exótico da fauna africana. Não e um retrato do animal, mas se torna um referente. Assim me parecem essas estratégias de Raick que se aproxima do que Tadeu Chiarelli chama de imagem de segunda geração, cuja imagem referencial é tomada como ponto de partida da nova obra.

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Desenhos a partir de Robert Smithson. Redesenhos de Diego Raick, 2015, Revista Valise.

Como artista, Raick é formado pela UDESC, em santa Catarina, em 2002. Perguntado sobre sua formação, respondeu:

Diego Raick: “Minha formação ocorreu na Udesc, no bacharelado em artes plásticas (1997-2002). O que foi decisivo é que o bacharelado era dividido em duas habilitações entre as quais os estudantes deveriam escolher: pintura e gravura ou escultura e cerâmica. Cursei a primeira opção, o que me aproximou muito do meio gráfico, com a carga horária extensa que tive voltada para cada procedimento no ateliê de gravura”.

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Matriz de pedra e prensa de litogravura

Raick segue nos falando sobre a dinâmica da sua formação: “O ateliê estava presente em nossa rotina do primeiro ao último período do curso, proporcionando em média 120 horas em cada um dos procedimentos tradicionais, mais uma disciplina final de experimentações variadas e o complemento contínuo de ateliê aberto sob orientação de monitores e grupos de gravura, como o Gravadores da Desterro […] , no qual participei de um álbum ainda em 1998. Fui aluno da Sandra Correia Favero, que fez sua formação em Curitiba, onde há uma tradição na gravura, e é uma artista muito competente e comprometida com a área.

Diego Raick iniciou sua carreira na UFES em 2016, na cadeira de Desenho e Gravura. Aliás, é usuau que meu Departamento de Artes Visuais faça concursos conjugados: Desenho e Gravura; Desenho e Pintura; Desenho e Escultura. Aparentemente, desenho deveria ser o eixo direcionador do curso, mas por algum motivo não o é. Mas, seguimos com concursos híbridos. Mas, a carreira docente desse artista-professor, é mais antiga:

Diego Raick: Quando comecei a lecionar como professor substituto em 2004 foi assumindo as disciplinas de gravura e desenho, subáreas nas quais segui atuando. No mestrado (2007-2009) optei pela linha de Processos Artísticos e a abordagem se voltou mais para o desenho e sua apresentação em contextos instalativos pelo viés de site-specificity. Não tratei pontualmente de gravura, mas meu processo de trabalho já envolvia transposições da imagem usando meios de impressão e projeção espacial. Em meio a estes estudos estendi a atuação docente na Udesc até 2012, quando consegui a bolsa de doutorado pleno no exterior da Capes e fui para Coimbra fazer o doutorado em arte contemporânea no Colégio das Artes.

Sua tese, “Desenho: pretensão, erro e ruína”, pela Universidade de Coimbra nos apresenta e desenvolve uma reflexão sobre desenho no âmbito da arte contemporânea, nos seus 3 estados: a idéia, grafismo e objeto. Mas, não nos parece tratar cartesianamente esses estados, mas sim os interstícios de cada um, os modos como eles se contaminam; ele mesmo afirma em sua tese: “são propostos aqui como um processo convulsivo relativo à potência do desenho, conceito aristotélico que na revisão de Giorgio Agamben permite pensar o movimento turbulento desta passagem como acréscimo.”

Ai final de seu doutoramento, Diego Raick muda-se par ao Espírito Santo, onde assume a cadeira de Litogravura no Centro de artes, associando gravura ao desenho de sua formação doutoral; como professor no CAR, segue o trabalho de fomentar o processo artístico dos alunos, sem, entretanto, se afastar do desenho.

Diego Raick: “Ainda na linha de processo artístico, minha tese foi direcionada para o desenho, refletindo sobre sua presença entre a espacialidade do impresso e da instalação, entre os discursos e as outras imagens. Concluí o doutorado em 2015, e poucos meses depois ingressei na Ufes, onde tive a grata surpresa de assumir o laboratório de litografia e a disciplina. Eu não conhecia o Espírito Santo nem o Centro de Artes da Ufes e, assim, na chegada tudo foi novidade.

Sua trajetória como artista e docente segue numa especial de dualismo em que o professor acompanha e dedica-se à litogravura com seus alunos; mas o artista não imprimi para si mesmo. Segue dialogando com os desenhos (quase gravuras) em suas intervenções pluridimensionadas.

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Ao falar sobre esse dualismo ou mesmo sobre sua atuação na gravura, Diego Raick é claro: “preciso comentar minha trajetória para situar isso mais adequadamente. Desde 2009 já vinha trabalhando com a Aline em projetos pessoais de publicações artísticas. Concebemos e produzimos pequenos folhetos e plaquetes combinando procedimentos de gravura e impressão digital. Nesse começo foi importante para nós a participação em algumas propostas da plataforma Par(ent)esis da Regina Melim como as publicações amor: leve com você e A2 e os projetos turnê e loja, e da Raquel Stolf como membrana e primeiros volumes de anecóica e sofá.”

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Aline Dias e Diego Raick, “ofício febril” – 2024, publicação de artista, aprox. 13x21cm, 12 páginas + sobrecapa. Fonte: acervo do artista

Dada a complexidade de seu trabalho; e ao fato de não se limitar às delimitações do termo gravura, Raick prefere se perceber “mais artista, no sentido amplo da palavra, do que especificamente um gravador e, ainda que minha contribuição docente tenha mais a oferecer no campo gráfico, sempre trabalho com os estudantes na perspectiva dessa formação artística ampla, na qual os recursos, quaisquer que sejam, atendam a suas disposições pessoais ou necessidade específica de alguma proposta que estejam desenvolvendo.”

E segue afirmando:

Diego Raick: Gosto de pensar, por exemplo, em como a gravura é aproximada com a escultura, mais do que a pintura, se pensarmos em termos de conceitos operativos: marca, transferência, reprodutibilidade, forma e contra-forma, superfície de contato, relevo… ainda assim, o meio gráfico é o que concentra minha atenção e mais me estimula, seja pela imagem produzida diretamente, como na maior parte dos desenhos, ou na imagem reproduzida pela mediação de dispositivos, como a matriz gravada.

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Finalizei minha conversa com esse artista perguntando sobre seu convívio com a Litogravura na UFES. Ele foi enfático: “Talvez meu convívio com essas raras matrizes calcárias envolva a satisfação de orientar os estudantes em seu primeiro contato (e talvez único) com esse método lento e caprichoso e que resiste ao desaparecimento faz mais de cem anos. Além da dificuldade de recursos materiais que a universidade pública enfrenta, a litografia tem como desafio a disponibilidade limitada das matrizes rochosas, cuja principal mina de extração foi fechada há décadas, e a descontinuidade de produção dos materiais originalmente empregados no procedimento.”

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Posso compreender que a obra de Diego Raick trafega entre o desenho e a gravura – com uma dedicação docente à oficina de litogravura. Mas, o conjunto de sua obra é mais libertário. Não se rende a paradigmas das linguagens limitantes da arte. Sua obra amplia não apenas o conceito de desenho ou gravura, mas coloca em xeque um dos pilares do capitalismo: a propriedade privada (autoria).

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Raick tem uma linha livre; um trafegar pela simplicidade da monocromia; circula no interstício do visual e do verbal. Sua obra parece se construir nos limites entre a bidimensão e o volume dos livros de artistas. Transita entre o original da tradição artística e a multiplicidade instigante dos processos gráficos contemporâneos. Um infiltrado que nos obriga a rever nossos paradigmas.

Revisão: Giuliano de Miranda*

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