O cenário da medicina no Brasil está passando por uma grande transformação. A presença feminina na profissão tem crescido de forma acelerada nas últimas décadas, e a expectativa é de que, até o próximo ano, as mulheres se tornem maioria entre os médicos do país. Esse movimento reflete uma mudança histórica, resultado da dedicação e competência das profissionais que vêm conquistando espaços antes dominados pelos homens.
Segundo o estudo Demografia Médica no Brasil 2023, em 2011 havia cerca de 141 mil mulheres médicas no Brasil. Em 2022, esse número saltou para 260 mil, indicando um crescimento expressivo. O levantamento projeta que, entre 2023 e 2035, a quantidade de médicas aumente 118%, enquanto o número de médicos homens cresça 62%.
No Espírito Santo, a tendência de crescimento feminino na medicina também se confirma e, mais do que isso: hoje a medicina é uma área predominantemente feminina do Espírito Santo. Conforme os dados de 2024 da Demografia Médica, atualmente o estado conta com 6.815 médicas registradas no Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo (CRM-ES), enquanto há 6.396 médicos homens. Ou seja: elas são 51,5% dos profissionais na medicina capixaba.
O presidente do CRM-ES, Dr. Fernando Tonelli, destaca a importância dessa ascensão feminina na medicina e reforça que o CRM-ES está atento à equidade de oportunidades. “Vejo com imensa satisfação a ascensão das mulheres na Medicina. No Espírito Santo e no Brasil, temos colegas supercompetentes, tanto mulheres quanto homens, que assumiram o protagonismo de suas carreiras e abriram portas para que os profissionais mais preparados ocupem posições de liderança”, ressalta.
Violência de gênero
Apesar dos avanços, Tonelli chama a atenção para um problema recorrente no ambiente de trabalho: a violência de gênero. “É inadmissível que as médicas sejam vítimas de agressões físicas e verbais no exercício da profissão. Infelizmente, isso ocorre com mais frequência nos atendimentos em unidades públicas de saúde. Como Conselho, estamos trabalhando para que as médicas tenham um ambiente de trabalho mais seguro e respeitoso”, enfatiza.

O estudo também aponta desafios relacionados à desigualdade salarial. Segundo a pesquisa, as médicas brasileiras têm um rendimento médio anual 36,3% inferior ao dos homens, conforme dados das declarações prestadas à Receita Federal no ano-base de 2020. A discrepância pode estar associada a fatores estruturais, como a dificuldade de acesso a determinadas especialidades e a menor ocupação de cargos de liderança pelas mulheres.
“Espírito de delicadeza e cuidado”
A Demografia Médica analisou a presença masculina e feminina em diferentes áreas da medicina. Os homens ainda são maioria em 36 das 55 especialidades reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Especialidades como Urologia, Ortopedia e Neurocirurgia, por exemplo, têm mais de 90% de profissionais do sexo masculino. Já nas áreas de Dermatologia (77,9%), Pediatria (75,6%) e Endocrinologia (72,1%), as mulheres são maioria.
A pneumologista e Especialista em Medicina do Sono e vice-presidente da Academia Brasileira do Sono – regional ES, Jessica Polese, salienta a crescente importância das médicas, enfatizando o “espírito de delicadeza e cuidado” que trazem à profissão. Ela observa que essa abordagem feminina, com sua comunicação empática e sensibilidade, complementa a excelência técnica, enriquecendo o cuidado com o paciente.

“Como Pneumologista e especialista em Medicina do Sono, acredito que nós mulheres na medicina, contamos com um espírito de delicadeza, de cuidado que já nasce conosco. Temos uma interação maior e uma abordagem mais empática com os pacientes. Somos mais comunicativas e temos mais facilidade em lidar com certas situações. Determinadas especialidades que exigem mais cuidado com o público são melhores executadas por mulheres”.
A médica Renata Melo conta que escolheu a profissão inspirada no pai, também médico, e enfatiza a importância da representatividade feminina. “Desde pequena, a medicina sempre esteve presente na minha vida. Escolhi a área da estética porque, além de cuidar da saúde da pele, posso devolver autoestima e bem-estar aos meus pacientes. A medicina é mais do que uma profissão, é um propósito de vida”.
Já a dermatologista Karina Mazzini lembra que sua trajetória na medicina não foi fácil, mas persistiu até alcançar o objetivo. “Sempre fui bolsista e estudei com muita dificuldade. Consegui passar na residência primeiro em clínica médica e depois na área que sempre amei: dermatologia. Hoje vejo cada vez mais mulheres ocupando espaços na medicina, e isso é um avanço”, frisa.

Formação de novas médicas
O Espírito Santo também tem se destacado na formação de novas médicas. Um exemplo é Eduarda Endlich de Freitas, estudante do 9º período de Medicina da Emescam, que foi aprovada para um estágio no Massachusetts General Hospital, em Boston, afiliado à Harvard Medical School.
Natural de Cachoeiro de Itapemirim, Eduarda sempre sonhou em internacionalizar sua carreira e buscou oportunidades para estudar fora do país. “Sempre quis viver uma experiência no exterior. Entrei em contato diretamente com os médicos que desejava acompanhar, enviei a solicitação e, após uma entrevista, recebi a carta de aceite”.

A jovem médica também destaca a importância de enfrentar os medos e persistir nos objetivos. “O primeiro passo não precisa ser perfeito, só precisa ser dado! Coragem não é a ausência de medo, mas agir apesar dele”, reflete. E complementa com uma frase que a inspira: “Sonhar custa caro, mas desistir custa um sonho”.
Eduarda faz questão de agradecer a todos que a apoiaram nessa jornada. “Sou muito grata aos meus amigos e à minha família, que sempre foram meu alicerce. Também agradeço à Emescam pelo suporte e aos meus professores, que me incentivaram desde o início e me ajudaram com as cartas de recomendação”, finaliza.