
Uma câmera simples, de um notebook ou acoplada a um computador convencional, analisa, por meio de aspectos geométricos, o rosto de um profissional responsável por validar a classificação de grãos armazenados em um centro de distribuição. Para que isso seja possível, a empresa que desenvolveu a tecnologia inseriu, no sistema, um recurso com Inteligência Artificial (IA).
Dessa forma, em vez de acessar o barracão onde está a carga apenas com login e senha, o avaliador passa por uma dupla checagem, para que se tenha a certeza que ele é mesmo a pessoa esperada. Este exemplo ilustra uma preocupação que vem se tornando comum em organizações ligadas ao agronegócio: aumentar, por meio de IA, a segurança e a responsabilidade de suas operações.
O sistema de reconhecimento facial foi desenvolvido pela AMcom, empresa com sede em Blumenau (SC), que tem escritório na cidade de São Paulo. Segundo Rodrigo Strey, vice-presidente da companhia, os recursos utilizados servem para inibir fraudes no processo de classificação dos grãos e não são inéditos, mas a funcionalidade é inovadora. “O agro tem, cada vez mais, usado tecnologias comuns para fazer validações incomuns”, afirma Strey.
O agronegócio está entre os cinco principais segmentos atendidos pela AMcom, que se especializou em criar, manter e evoluir soluções digitais para negócios complexos em diversos ramos de atividade. “Nos últimos cinco anos, principalmente, o agro deu uma guinada superimportante na adoção de tecnologias em seus processos”, afirma Strey.
A validação por reconhecimento facial foi encomendada por uma grande empresa do segmento alimentício. O vice-presidente da AMcom explica que a ferramenta, que mantêm o desempenho mesmo em situações de baixa luminosidade, pode ser uma aliada na governança, já que classificações equivocadas podem comprometer uma quantidade considerável de grãos caso se misturem no estoque.

“Apesar de ter sido direcionado para uma empresa específica, o tipo de solução que a gente utilizou pode servir para outras, bem como para outras finalidades, como verificar se o motorista que está entrando numa balança para pesar o caminhão é realmente o profissional habilitado para a função. Já não é raro ver empresas do agro usando a hiperautomação [automação + IA]”, explica Strey.
Urgência
Investir em Inteligência Artificial não é somente uma necessidade do agro, mas uma urgência. Essa é a opinião de Anderson Rocha, professor e coordenador do maior laboratório de pesquisas em IA da América Latina, o Recod.AI, na Universidade Estadual de Campinas-SP (Unicamp).
Segundo o especialista, se não houver rapidez em aderir à tecnologia e criatividade para pensar em soluções “fora da caixa”, será difícil enfrentar os grandes desafios que se impõem quando o assunto é a produção de alimentos, especialmente as questões climáticas. “Em outras palavras, a IA deve ser, hoje, o maior aliado do agro”.
Executivos de empresas e cooperativas do setor parecem concordar com o argumento. A pesquisa Termômetro da Inovação Aberta no Agro, divulgada em dezembro pela PwC Agtech Innovation, demonstrou que a Inteligência Artificial está no topo do interesse entre os 86 entrevistados. Todos os itens podem ser integrados com plataformas de IA.
Confira as prioridades de investimentos, conforme o Termômetro da Inovação Aberta no Agro:
Processos antes da porteira
- Inteligência Artificial: 61%
- Digitalização: 57%
- Automação, aprendizado de máquina e robótica: 55%
- Conectividade: 49%
- Big Data avançado e Internet das Coisas (IoT): 43%
Processos para dentro da porteira
- Agricultura de precisão: 69%
- Soluções para descarbonização e ESG: 55%
- Sistemas de gestão e integração de dados: 54%
- Tecnologia para aplicação de insumos: 52%
- Drones e sensoriamento remoto: 48%
Processos para depois da porteira
- Armazenamento, infraestrutura e logística: 59%
- Indústria 4.0: 52%
- Marketplaces/e-commerces: 42%
- soluções que melhorem a experiência do cliente: 42%
- Segurança alimentar e redução de desperdícios: 35%
Acesso

Entre as maiores dificuldades para aderir à Inteligência Artificial, está o acesso ao crédito, principalmente entre os agricultores com menor poder de investimento. Buscando reduzir esse impacto, a Nagro, com sede em Uberlândia (MG), oferece uma plataforma de análise de risco de crédito para o agro com IA, a AgRisk
A proposta é facilitar a liberação de recursos visando incluir, principalmente, médios e pequenos produtores. São mais de 30 serviços incluídos, como consultas a processos judiciais, comportamento bancário, propriedade rural e veicular.
Leonardo Rodovalho, COO e fundador da Nagro, e Pedro Henrique Santiago, gerente de produtos, explicam que, com o uso da IA, a empresa ampliou, nos últimos três anos, de 9 mil para 2 milhões o número de créditos consumidos por consultas mensais, totalizando R$ 900 bilhões em avaliação. Nesse período, mais de mil clientes foram atendidos, entre cooperativas, revendas, indústrias e escritórios de advocacia em todo o país — inclusive no estado de São Paulo —, que avaliaram mais de um milhão de CPFs.
“Com a IA, conseguimos reduzir o tempo de análise entre 40% e 60%, o que agiliza a obtenção de recursos pelo produtor e, para as empresas, é uma forma de simplificar e tornar as operações financeiras mais seguras”, afirma Rodovalho.
Uma das soluções da plataforma analisa o histórico de comportamento financeiro dos produtores em todos os estados, a partir de dados fornecidos pelo Banco Central e do acesso a Cédulas de Produto Rural (CDR) – ajudando a evitar riscos na oferta de crédito. “É possível visualizar o endividamento total do cliente nas instituições financeiras e junto ao mercado, possibilitando uma compreensão sobre o potencial de alavancagem dele”, explica Rodovalho.
Na esfera pública
A preocupação com segurança e responsabilidade na análise de dados chegou até mesmo na Secretaria Estadual de Agricultura de São Paulo. A pasta lançou, neste mês de março, sua própria ferramenta com IA, com o intuito de auxiliar seus colaboradores nas tarefas, por meio da oferta de informações precisas e com agilidade.
O assistente virtual foi desenvolvido pelo setor de Tecnologia da Informação (TI) da secretaria e está na fase inicial de implantação. O secretário Guilherme Piai informou, em nota, que “o Governo de São Paulo está atento à necessidade de aplicar tecnologia e inovação na rotina de trabalho e no tratamento dos dados”.
Na mesma nota, o diretor de Gestão de Sistemas, Michel Martins, disse que o modelo é capaz de responder sobre diversos temas relacionados ao agro. E que o uso será restrito à secretaria, justamente para garantir “a segurança das informações”.
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