
Pesquisadores da Embrapa Pesca e Aquicultura conseguiram, pela primeira vez, coletar amostras de sêmen de pirarucu utilizando a técnica de canulação, um avanço significativo para a reprodução artificial da espécie. Com o método, será possível realizar a fertilização in vitro, unindo as células sexuais do macho e da fêmea para gerar e desenvolver os embriões em uma incubadora.
A técnica de canulação consiste na inserção de um cateter de silicone no canal reprodutivo do peixe. Embora essa prática seja comum em outras espécies, como o tambaqui, os pesquisadores ainda não haviam conseguido aplicá-la no pirarucu devido às características anatômicas distintas dessa espécie.
Desafios da reprodução do pirarucu
Atualmente, existem duas formas para fazer a reprodução natural do pirarucu: o viveiro extensivo, com mais de 2 mil m², e o intensivo, com menos de 200 m². No extensivo, a reprodução ocorre naturalmente, sem interferência humana. Depois os alevinos são retirados e levados para engorda. No intensivo, os casais são colocados juntos estrategicamente para acasalar e formar alevinos.
Segundo o pesquisador Lucas Torati, um dos principais desafios na reprodução de pirarucu é a identificação do sexo dos animais para a formação de casais. Mas, com a técnica de canulação desenvolvida pela Embrapa, os piscicultores conseguem identificar se o peixe é uma fêmea e verificar seu estágio de maturação reprodutiva, aumentando as chances de sucesso da reprodução natural. Após estudos, os pesquisadores da Embrapa conseguiram distinguir machos e fêmeas com um acerto entre 80% a 100%.
“Estamos avançando para conseguir não depender mais de um sistema extensivo, para poder trabalhar com métodos mais otimizados de formação de casais e poder avançar, de uma forma muito mais disruptiva, para fertilização artificial. Ainda estamos em fase de pesquisa, principalmente em relação às fêmeas, mas estamos avançando”, destaca Torati.

Próximos passos
O pesquisador da Embrapa que lidera o estudo, Lucas Torati, destaca que a etapa seguinte é avançar na coleta do material genético das fêmeas e desenvolver um protocolo para criopreservação (técnica de congelamento) do sêmen do pirarucu. “Estamos avançando com o desenvolvimento de pesquisas para que, quando conseguirmos avançar com a questão das fêmeas — que seria a coleta dos ovos — já tenhamos a parte dos machos resolvida”, disse em entrevista ao Agro Estadão.
Outro avanço proporcionado pela técnica de canulação é a possibilidade de identificar o estágio de maturação dos ovários das fêmeas. Essa abordagem permite o progresso das pesquisas sobre terapia hormonal, que consiste em estimular o desenvolvimento ovariano das fêmeas de pirarucu por meio de intervenção hormonal. “Com a canulação, hoje conseguimos testar diferentes hormônios na estimulação da ovulação das fêmeas”, detalha o pesquisador.


Primeiros resultados práticos
O piscicultor Moisés Zorzeto Neto, dono da Piscicultura Raça, em Canabrava do Norte (MT) conseguiu dobrar a produção de alevinos depois que aprendeu a técnica de canulação com a Embrapa. À reportagem, ele disse que a inovação ajuda em um maior controle sobre as reproduções.
“Quando percebo que a fêmea está com uma porcentagem alta de ovócitos maduros, eu sei que ela vai reproduzir. Aí vou atrás de um peixe macho perfeito para o acasalamento”, conta.
Segundo Moisés, sua produção tinha uma média de 70 mil alevinos por ano. Após a técnica de canulação, esse número saltou para 140 mil. No entanto, ele ressalta que não é vantajoso forçar o pirarucu a reproduzir todos os filhotes de uma só vez dentro de uma única safra. “Ele não vai conseguir se recuperar na próxima. Tem que dar um grau de descanso. Por isso, eu vou esperar cerca de dez anos para poder tirar uma média do quanto aumentou a reprodução com a técnica da canulação, contando os anos com falhas”, estipula.
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